O que é “Defender a BASE”?

Fala, pessoal!

Alguns dias atrás, o Blog do Souza soltou uma matéria falando sobre a parceria entre NBB e CBC, que resultaria numa queda dos torneios de base. Vou fazer um resumo mas recomendo muito a leitura completa no blog (leia aqui).

Basicamente, essa parceria resultaria numa ajuda da CBC na logística dos clubes do NBB, onde as equipes terão custeadas passagens aéreas e hospedagem para todos os jogos fora do próprio Estado e em viagens acima de 500 quilômetros dentro do Estado. Porém, a CBC decidiu usar o orçamento dela de execução e organização dos torneios e dividir entre base e adulto.

Resultado disso é que não teríamos os 30 torneios de base como realizados anteriormente, mas sim 10 em 3 categorias no próximo ano. E enquanto escrevo esse texto, vejo que talvez não tenhamos nenhum:

Pois bem, eu gostaria de expôr meus pensamentos sobre o caso porque é uma situação que não me surpreende em nada, e fico totalmente a disposição de quem quiser conversar sobre o tema porque acho que vou na contramão de muitos depoimentos que venho lendo nas redes sociais.

Primeiro gostaria de explicar a minha visão de mundo sobre “qual o objetivo de uma empresa”. Lucro. Simples e objetivamente, é Lucro. E não vejo problemas nisso, porque é com esse lucro que uma empresa paga suas contas, é com esse lucro que uma empresa paga seus funcionários e é com esse lucro que uma empresa contrata mais funcionários. Uma empresa não está preocupada com desigualdade, não está preocupada com injustiças, não está preocupada com causas sociais. Todas ações que ela faz, é para criar identificação com seu público alvo e aumentar sua receita. Ponto.

Pensando nisso, eu não tenho o que dizer sobre a LNB a não ser dar parabéns por fechar essa grande parceria com a CBC. Imagina, ter boa parte de seus custos logísticos custeados, é uma baita conquista para uma empresa. Mérito total a sua diretoria.

Nossa, mas você é contra o investimento na BASE???

Olha, para quem me acompanha sabe o quanto eu me importo com o basquete de formação, mas a coisa já começa errada quando precisamos pagar R$ 50.000,00 por ano para disputar um torneio de uma semana e achar uma tragédia quando ele deixa de existir. O problema da base está muito antes e criar essa comoção toda pela CBC é chorar por migalhas. E sim, é uma migalha que faz muita diferença para muitos times e isso é MUITO TRISTE.

instagram @lendariosbasketball

Para quem critica a LNB por conseguir esse custeamento, eles estão visando os interesses da instituição, em transformar a liga em algo cada vez maior, e estão corretíssimos nisso. Até mesmo a criação da Liga de Desenvolvimento (LDB) não é algo altruísta (ao meu ver). Claramente eles estão preocupados em gerar novos talentos para o NBB e manter a liga sempre se renovando e ter melhores jogadores – ouça entrevista abaixo a partir dos 20:20 até 22:30 .

Nós deveríamos lamentar que a base não tem uma equipe de gestores tão boa quanto a LNB para brigar por mais recursos.

E quem critica a CBC, veja qual o objetivo do comitê (trecho retirado da nota de esclarecimento):

Pois bem. Segundo o art. 3º de seu Estatuto Social, o CBC tem como objetivo social o incentivo, a promoção, o aprimoramento e o planejamento das atividades de formação de atletas olímpicos, assim compreendidas todas as categorias em que o atleta esteja em preparação para os Jogos Olímpicos, conforme expressamente previsto em seu Programa de Formação de Atletas, disponível para leitura no site do CBC na internet.

Assim, eu acho muito pouco efetivo um programa de formação de atletas olímpicos focados em clubes que podem desembolsar um recurso alto para disputar seu torneio de uma semana. Mas ok. E segue mais um trecho sobre a decisão de investir no basquete adulto:

Ora, assim como a CBB possui autonomia para definir a estratégia de desenvolvimento de sua modalidade esportiva, o CBC, por sua vez, tem autonomia para desenvolver sua estratégia de investimento no esporte, que é norteada por um Programa de Formação de Atletas, isto é, ao CBC cabe definir onde e como aplicar seus recursos, sem qualquer interferência.

E então finaliza dessa forma:

Por fim, em que pese todo o respeito aos membros da entidade, caberá à CBB, que possui autonomia de gestão sobre o basquete brasileiro e, assim, poderá realizar as competições com ou sem o apoio do CBC, reavaliar a manutenção das tratativas até então estabelecidas para o ano de 2021, pois na visão deste Comitê não é possível levar a frente uma parceria com entidade que qualifica como lamentável as decisões tomadas de forma conjunta, negociada e amigável, em prol do desenvolvimento do basquete nacional.

Para quem quiser ler a nota na íntegra, segue link – https://cbclubes.org.br/noticias/nota-de-esclarecimento-campeonatos-brasileiros-interclubes-de-basquete .

Pois bem, agora vou colocar mais alguns pontos pessoais. Eu já vi muitos times em São Paulo acabarem, acompanhei um de perto encerrar suas atividade de 2019 para 2020 e, do jeito que lidamos com o basquete de base, acho que irei ver isso acontecer mais vezes.

Vamos dar uma olhada na percepção da LNB quando surgiu a ideia de construir o NBB (trechos retirados da matéria de anos da LNB – https://lnb.com.br/noticias/lnb-10-anos-de-inovacao/ ):

Os meados dos anos 2000 foram tempos sombrios para a modalidade no Brasil. Os ídolos estavam se aposentando, os resultados da Seleção eram ruins e os campeonatos nacionais cada vez mais desorganizados – um deles, inclusive, não chegou ao fim por problemas políticos.

“O basquete vinha passando por um período de crise e a sensação que ficava é que estava faltando uma coesão maior entre os clubes, além de um maior profissionalismo e organização na administração do basquete como um todo, principalmente das entidades que organizavam as competições”, disse Rubens Calixto, um dos conselheiros da LNB.

“Naquele momento havia muita desconfiança entre os clubes. Por isso, o primeiro passo, além do planejamento, foi fazer os clubes acreditarem que a união era o melhor caminho e que um poderia confiar no outro. Isso não foi fácil no começo, pois haviam desconfianças antigas e até uma certa descrença de que uma Liga seria a solução dos problemas”, comentou Rubens Calixto.

O conceito de liga realmente não era – e ainda não é – muito familiar no país, pois a grande maioria dos esportes são geridos por federações e confederações.

Basquete de base não se pode fazer com política, não dá para fazer com a maioria das federações e está cada vez mais difícil com a confederação também. Quem faz a base são os CLUBES! Sabe quem é outro personagem importantíssimo nessa história toda? Os PAIS! O que mais vai precisar acontecer para os clubes se reunirem e formarem suas próprias ligas? Quando vamos voltar a ter times de bairro e não fazer um atleta de Guarulhos cruzar a cidade para jogar num clube grande que pode pagar para jogar no CBC? Quando que ter um logo de federação na camisa vai ser menos importante do que massificar o esporte? Quantos mais talentos iremos perder pelo Brasil por falta de conhecimento e integração entre os estados?

Repito, a retirada (parcial ou total) dos recursos da CBC não é o problema do basquete de base. Lamentarmos isso é, além de triste, apenas a consequência do descaso de anos. E a solução desse descaso não pode vir de cima para baixo, tem que ser da BASE para cima.

Eu não vou identificar quem me mandou essa mensagem, e desculpe não ter pedido permissão, mas acho que simboliza bem o que SEMPRE aconteceu:

Mas também, a CBB que desde 2015 não organiza nada, nem um racha, e eles estão botando lenha na fogueira também. Estes dirigentes, tanto os antigos quanto os atuais, não pensam em um futuro para bem comum, pensam somente neles. Muito triste isto, e a base continuará sobrevivendo com ajuda dos pais.

Eu não tenho nada contra as manifestações de revolta nas redes sociais dizendo que se importam com o basquete de base, inclusive acho legítimo, mas para resolver esse problema vai ser necessário muito mais que uma hashtag.

É isso, pessoal, um abraço e até a próxima!

3 comentários Adicione o seu

  1. Marcos disse:

    O problema como vc disse, é muito mais complexo.

    Na minha opinião, todo esse alarde com a # o único a perder com isso é o próprio basquete de base. Explico.

    Até 2016 não existia nenhum campeonato nacional de clubes. Existia o campeonato de seleções onde apenas os melhores de cada Estado tinham a oportunidade de participar. Com a CBC abriu a oportunidade de clubes participarem e muito mais atletas tiveram a chance de vivenciar é jogar o que antes era restrito.

    Qualquer clube paga a sua Federação uma taxa e mensalidades para poder participar. Mesma coisa acontece com os clubes que pagam a CBC uma taxa. Dizer que são 50k anuais e só, é analisar de maneira simplista, pq vc sendo membro do CBC vc além de participar dos campeonatos tendo custo do campeonato, estadia e transportes pagos, vc participar dos editais que reverte subsídios ao clube associado para pagamento dos profissionais do clube , desonerando o clube nessa parte, além de materiais com tabelas, bolas, uniformes e outros muitos benefícios. Enquanto vc pagando Federações vc ainda paga pra disputar o campeonato e não recebe nada em troca. Então há muito mais coisa por trás.

    Os números dizendo que diminuiu, são baseados em que? Qual o parâmetro utilizado? Esse ano de 2020 muitas competições de 3×3 em varias idades iriam acontecer, mas pelo q vi são esses os campeonatos que “cortaram”. São importante? Claro. Mas a estrutura base que iniciou em 2016 e que não existia antes foi mantida.

    Como vc disse, assunto complexo e difícil de resumir em um texto.

    O que me preocupa é que a narrativa da # quem sai perdendo é o basquete. A CBC resolve realocar toda a verba pra outra modalidade e aí como fica o basquete? As Federações e Confederações do basquete tem recursos para substituir o que eles realizam hoje?

    Não podemos nos precipitar. Esse ano não sabemos nem se teremos competições. Temos que esperar e ver como vai ser a volta e ficar felizes que estão planejando pro ano que vem algo!

    Essa “guerra” o único que perde é o basquete

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  2. Marcello Berro disse:

    A CBC SE TORNOU DONA DA BASE DO BASQUETE NACIONAL. QUANDO O MEDO É: “Se ela resolve retirar o investimento no basquete” significa que JÁ SOMOS REFÉNS! “O fim está próximo” A volta dos brasileiros de seleções estaduais é FUNDAMENTAL

    Curtido por 1 pessoa

  3. Luciano Allegretti Mercadante disse:

    Parabéns pela discussão, gostaria de colaborar. Concordo com boa parte dos pontos de vista que defende, mas quero apontar que os clubes não mais são os principais formadores. Nesse sentido, publiquei no Face o texto abaixo que divido com vc.
    Sobre o investimento do Comitê Brasileiro de Clubes no Novo Basquete Brasil
    Caro Sr. Presidente do Comitê Brasileiro de Clubes,
    Expresso aqui minha opinião sobre o assunto, a partir da nota de esclarecimento publicada por este Comitê, em resposta a nota da Confederação Brasileira de Basquetebol. Minha opinião foi formada em discussões com dezenas de treinadores de categorias de base no país, indignados, como eu, com tal medida.
    Considero a divergência principal uma questão de prioridades, de escolha do que melhor para o desenvolvimento do basquetebol, sem nenhuma conotação de disputa política por verba ou poder, como aponta a nota, bem como não questiono a legalidade da ação.
    O primeiro ponto é o que entendemos por formação de atleta olímpico. A nota deixa claro que preparação de atletas de maior expressão nacional para as Olimpíadas faz parte do processo de formação, o que discordo totalmente. É quase um consenso entre treinadores das categorias de base que os principais objetivos nas etapas de formação são educacionais, visando o desenvolvimento pessoal e esportivo, diferente dos objetivos das categorias adultas que disputam o NBB ou de uma seleção se prepara para os jogos olímpicos. Formação esportiva é feita nas categorias de base, não no apoio a compra de passagens aéreas para disputa do maior campeonato masculino adulto do país, que não faz parte do processo de formação. O alto rendimento como espetáculo é um negócio, bem sucedido na grande maioria dos países do mundo e, portanto, senão lucrativo, auto suficiente. Assim, entendo que esse investimento pode não ser ilegal, mas é certamente um equívoco quanto aos objetivos declarados na nota de esclarecimento.
    O segundo ponto, é quanto ao papel do Campeonato Brasileiro de Clubes substituir os campeonatos de seleções estaduais das categorias de base, que foi chamado na nota equivocadamente de inovador, pois participei de campeonatos brasileiros de clubes como treinador na década de 1980. Esse modelo é excludente, pois os clubes não representam todas as entidades que investem na formação de atletas pelas categorias de base do basquetebol. Pesquisas mostram que no sistema federativo do estado de São Paulo em 2018, das 102 entidades promotoras de equipes masculinas de categorias de base, 48 são prefeituras; 40 são entidades sem fins lucrativos como associações, fundações e instituições; 32 são clubes e 15 são empresas e/ou escolas particulares e escolas de esporte, deixando claro a impossibilidade de representar todo o universo de formação. Ainda é pior o cenário quando considerarmos outros sistemas de ligas não federadas e o universo de formação de atletas femininas.
    Estes são os argumentos principais que sustentam a indignação demostrada nas redes sociais por centenas de treinadores das categorias de base. Assim, esclareço meu ponto de vista, acreditando na grandeza das discussões abertas entre os diferentes atores envolvidos, por confiar na lisura e boa intensão dos dirigentes do Comitê e da CBB, no sentido de avançarmos nas discussões e de dar voz aos treinadores.
    Att,
    Prof. Luciano Allegretti Mercadante

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