Basquete Europeu e credenciais | Como funciona a BASE italiana

Fala, pessoal!

Alguns anos atrás, estava ouvindo um podcast do Bala na Cesta sobre a seleção brasileira, que estava prestes a disputar os Jogos Olímpicos (não lembro se Londres 2012 ou Rio 2016). Nesse programa, Fábio Balassiano relata uma conversa com um profissional europeu sobre sua torcida por uma medalha do Brasil nos Jogos. A resposta que o jornalista recebeu foi algo mais ou menos assim:

Medalha? Não, o Brasil ainda não tem as credenciais.

Bom, já sabemos que a medalha não veio, tanto em Londres quanto no Rio, mas a pergunta que fica é: que raios de credenciais são essas??? Guarde essa pergunta que iremos retornar nela mais tarde. Por ora, vamos fazer um alt+tab e construir o caminho da resposta.

Um dos atletas da geração 2003 que acho mais interessante, Mateus Velloso Semeghini, teve seu início no basquete nas equipes do Palmeiras e Círculo Militar – aliás, entrevista com o ala para o canal no YouTube abaixo – e seguiu seu desenvolvimento na Itália. Por estar já alguns anos no país, o chamei para me ajudar a entender como funciona o basquete de base no país.

Na Itália existe uma federação nacional (Federazione Italiana di Pallacanestro) e todas regiões seguem o mesmo padrões, porém em cada região existe um comitê regional. Para fins comparativos, o país tem 20 regiões (ou províncias) que se comparam aos nossos estados.
Muitos times e muitos jogadores fazem parte da base italiana, seguindo as seguintes categorias:

  • Mini Basket – É a escolinha do basquete italiano, que vai dos 5 aos 12 anos e em uma tabela mais baixa. Aqui já é interessante observar que o país se preocupa em acompanhar os atletas desde muito cedo. Por aqui nós consideramos começar cedo no basquete com 10 anos, alguns casos com 9, mas não um número suficiente para termos campeonatos, ainda mais oficiais. Aliás, olha a tabelinha aí – para quem quiser saber o que penso sobre a tabelinha, clique aqui.
  • U13
  • U14
  • U15 – A partir do Sub-15, os times são divididos em 3 divisões por nível (Regional, Elite e Excelência), devido a grande quantidade de times.
    • Excelência é o nível mais forte, onde se encontram times que jogam série A na categoria adulta;
    • Elite apresenta um nível intermediário;
    • Regional tem um nível mais baixo mas ainda competitivo.
    • *Curiosidade – Mini Basket, U13, U14 e U15 não apresentam os 24 segundos visíveis e a contagem é feita pelo árbitro que alerta os últimos 10 segundos de ataque. Isso é bem interessante porque deve diminuir muito os custos de cada jogo. Basicamente seria necessário apenas um mesário para controlar o placar. Não sei dizer se isso causa muitos problemas nos jogos por lá – ou se funcionaria aqui – mas é interessante o formato.
  • U16
  • U18 – Composta por atletas de 17 e 18 anos, o Sub-18 é a última categoria de base antes da adulta. Depois do último ano de Sub-18, muitos jogadores não vão diretamente para equipes de série A e A2, mas sim para times de terceira, quarta e quinta divisão (B, C1 e C2), onde podem ter mais espaço, jogando e treinando contra jogadores mais velhos que já estiveram em grandes níveis. Eu achei fantástico esse formato, pois todos sabemos quão difícil é a transição de base para adulto, e perdemos muitos nomes nessa fase.

Existe um outro fator muito interessante nos campeonatos italianos. Eles começam em setembro e acabam, pelo menos, em maio caso os times ficaram em primeiro de suas regiões. Caso os times fiquem em primeiro nas suas regiões, provavelmente vão para as finais nacionais – os primeiros colocados de todas regiões jogam um contra os outros, resultando no campeão nacional.

Entre campeonatos regionais e nacionais, é muito comum participar de torneios paralelos, tanto no país quanto no restante da Europa. Perguntei para Mateus sobre quantos jogos ele jogou na temporada de 2019 e ele acredita que tenha sido por volta de 58: do campeonato italiano foram 36 e EYBL (European Youth Basketball League) por duas categorias foram 22. Por fins de comparação, um time Sub-15 que disputa o campeonato paulista, deveria jogar por volta de 24 partidas. Se esse time jogasse uma CBC e/ou Sul-americano, talvez chegasse a 35 partidas

Para conseguir ter uma visão mais detalhada do basquete italiano, consultei os sites http://www.playbasket.it e http://www.fip.it para enxergar como os times são distribuídos pelas regiões. Eu olhei basicamente as categorias Sub-15, Sub-16 e Sub-18, mas acho que vai ser o suficiente para entender o que se passa por lá.

Veja abaixo a distribuição de times por categorias (U15, U16 e U18) e nível (Excelência, Elite e Regional):

Bom, vamos fazer algumas comparações.

População do país:

  • Brasil – 211.755.692 habitantes
  • Itália – 59.616.000 habitantes

Extensão territorial:

  • Brasil – 8.510.296 km²
  • Itália – 301.334 km²

Ou seja, a população brasileira é 3,6 vezes maior que a Italiana e possui uma área 28 vezes maior. Só para ajudar um pouco mais na comparação, a Itália cabe dentro do estado do Maranhão (329.642 km²) e a população do estado de SP não fica tão atrás (46.289.333 ou 77% do país europeu ).

Mas vamos olhar as conquistas do país e seu ranking FIBA. Vamos começar com o ranking.

  • Brasil: 10o
  • Itália: 12o

Fonte: https://www.fiba.basketball/rankingmen

Uai, estamos bem! Na frente da Itália! Certo, vamos forçar um pouco mais e olhar o ranking dos jovens:

  • Brasil: 24o
  • Itália: 10o

Fonte: https://www.fiba.basketball/rankingboys

Pois então, esse cálculo do ranking leva em conta muitos fatores, entre eles a participação em Olimpíadas e Mundiais por exemplo. Veja como o país performou nas últimas edições:

Olimpíadas
Copa do Mundo

O nível de competição na Europa é muito alto. Para se ter uma noção, observem que a Itália pegou prata em Atenas 2004 e nos Jogos seguintes não se classificou. Inclusive, desde então não fez parte, enquanto o Brasil sim, o que pode explicar o ranking.

Agora acho que podemos voltar a pergunta inicial. Temos as credenciais para disputar uma medalha olímpica? Eu creio que não. Um país como a Itália tem um número absurdamente maior de times que um país com população quase 3 vezes maior – é um capital humano muito grande para sermos o que somos.

São Paulo, que é o estado onde temos o maior número de times, tem no máximo 20 times disputando os campeonatos metropolitanos – menos ainda nos estaduais! Se tivéssemos um trabalho sério de massificação, um programa bem estruturado, era para estados como São Paulo terem um número absurdo de times, nos mais diferentes níveis e em todas regiões.

Agora deixo esse pensamento para você, caro atleta, que não tem culpa de nada disso, porém sofre as consequências, mas pense que enquanto você está buscando apenas títulos, e não o seu desenvolvimento (treinando por fora, buscando mais tempo de jogo, desafios cada vez maiores), têm muitos atletas na Europa jogando alucinadamente contra equipes dos mais diferentes níveis, de diferentes países, de variáveis tipos escolas e enriquecendo seus fundamentos.

E você, caro dirigente de clube, estamos mais satisfeitos com o troféu na vitrine do que na geração de talentos? Disputar um campeonato paulista, por exemplo, com cada vez menos times, é o ápice dos campeonatos estaduais? Não termos integrações relevantes com outros estados e não expor nossos atletas a mais desafios faz algum sentido?

Pois bem, quando chegamos em competições mundiais (ou nem chegamos) e a bola não cai, entendemos quais são as credenciais.

É isso, pessoal, um abraço e até a próxima!

3 comentários Adicione o seu

  1. Simples e objetivo, as categorias de base são muito baratas, onde vê que não há uma institucionalização dos campeonatos, são realizados pelas próprias equipes.

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    1. BBallBase disse:

      exatamente o ponto, tem que ser realizado pelas equipes, que são os maiores interessados que funcione direito.

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