Cobra Kai e os técnicos “old school”

Fala, pessoal!

Depois de um longo tempo de inatividade, estou de volta. Nesse meio tempo, eu assisti uma série que vem sendo bastante comentada: Cobra Kai (Netflix). Além de ser uma série muito boa, me fez pensar sobre algumas características do basquete de base.

Mas o que tem a ver uma série sobre caratê com basquete de base?

Vamos contextualizar. Um bom tempo atrás, estava cobrindo uma partida de Sub-14 e um técnico foi um pouco mais rígido com seu atleta. Logo a minha frente tinham algumas mães do time adversário e estavam chocadas com o ocorrido – até falavam entre elas que iriam processar o técnico. Pois bem, é isso que quero abordar nesse texto, sobre o nível de exigência dos técnicos, principalmente os considerados “old school”, que tem muito a ver com o personagem de Johnny Lawrence em Cobra Kai (que volta, não?).

Essa não foi a única vez que vi questionamentos sobre uma abordagem mais firme de técnicos em seus atletas, mas é interessante observar que geralmente temos uma imagem do momento do ocorrido, quando no dia-a-dia dos treinos, o relacionamento técnico-atleta pode ser muito diferente.

Lembro que em um dos podcast do Café Belgrado com o técnico Galego (Flamengo LDB), ele levantou um ponto muito interessante sobre os técnicos mais duros, onde eles geralmente se vangloriam dos grandes atletas que formaram, mas o técnico do Flamengo faz o seguinte questionamento: e todos os atletas que deixaram de jogar por tê-lo encontrado?

Achei uma boa pergunta, mas realmente não tenho ideia se existe algum estudo que avalia isso, mas o ponto que gostaria de trazer para esse texto é que estamos falando de esporte de alto rendimento. Como meu ex-técnico (Pipoca) falava, “o basquete nada mais é que um reflexo da sociedade”. Quando falamos de alto rendimento, na busca pela excelência, eu realmente acredito que a cordialidade perde um belo espaço. Vamos exemplificar com o trecho de um dos meus filmes favoritos: Whiplash

Infelizmente não encontrei o trecho traduzido/legendado, mas o filme está disponível na Amazon Prime. De forma resumida, o maestro Terrence Fletcher (J.K. Simmons) diz que não existem duas palavras mais prejudiciais que “bom trabalho (good job)”, pois elas podem acomodar uma pessoa e, para ele, privar o mundo de um grande talento (no caso do filme, um músico de jazz) é uma tragédia.

Bom, para quem já viu o filme, sabe que os métodos do maestro são extremamente abusivos e passam do limite, mas a realidade, nua e crua, é que os grandes atletas passam por situações que fogem do senso comum. E temos exemplos dos mais variáveis níveis, como Kobe Bryant acordando seu companheiro de equipe às 3 da manhã para treinar (já imaginou seu chefe te cobrando isso?) ou Diego Hypolito que tem oito hérnias de disco, duas fraturas e uma escoliose e, mesmo assim, ganhou a vida exigindo mais do que seu corpo aguenta (e basta uma dor de cabeça que muitos matam o trabalho).

Cada ambiente tem suas particularidades e não podem ser simplesmente transpostas. Você, caro leitor, provavelmente assistiu “The Last Dance”, série documental sobre a última temporada daquele Chicago Bulls lendário. Vai me dizer que os métodos que o Michael Jordan utilizava para obter o máximo de seus colegas são aplicáveis no cotidiano mais trivial? Acredito que não.

Bom, você deve estar pensando:

Ok, mas qual o limite? Isso não pode vir a se tornar perigoso?

Eu encontrei um debate bem interessante na ESPN, onde o técnico Tom Izzo estava sendo bastante criticado por ter dado uma bronca em seu atleta – vídeo abaixo:

Na roda de discussão, o ex-atleta Isiah Thomas fala sobre sua convivência com um dos técnicos mais durões do basquete, Bob Knight, e se ele acredita que esse tipo de abordagem é boa para o atleta ou não. Acompanhe o trecho legendado abaixo (vídeo completo aqui):

Eu não sei dizer se existe um método de treinamento mais eficaz que o outro, pois já vi tanto técnicos enérgicos quanto afáveis conseguirem atingir grandes resultados, mas se a balança pende para algum, precisaria ter algum estudo para avaliar objetivamente. Porém o interessante de tudo isso é que quando um técnico enxerga algo em você que nem você enxerga, deve ser desesperador para ele ver esse potencial e não fazer nada. E muitas vezes, essa relação faz surgir uma amizade que dura anos e anos.

Lembra quando disso no início do texto que só temos acesso a fotografia do momento, mas não vemos o relacionamento fora dos jogos? Abaixo temos Aaron Henry falamos exatamente sobre isso, que a bronca não mostra que tipo de contato os dois têm – que é sim bastante especial.

Veja esse relato que recebi de um pai de atleta que acompanha meu trabalho:

Léo, a linguagem no esporte é estupida, grosseira, passa da linha dos bons modos, porém, você não vê um técnico, diretor ou jogador falando “VTNC” em outro ambiente. Ou seja, o ambiente é assim mesmo, cada ambiente tem as diretrizes do comportamento. E concluo que se o jogador for mimado, respondão, chorão, não vai durar no esporte.

Talvez quando falamos de esporte de alto rendimento, ou profissões que exijam uma alta performance além do normal, essa pessoa precise estar preparada para isso. Vai ver como é a pressão de quem trabalha como diretor de arte em uma agência de publicidade, com banco de investimentos, vendas em determinados seguimentos. Como Isiah Thomas disse no vídeo anterior, alguns momentos você precisa usar outras emoções para conseguir uma defesa melhor, correr mais rápido ou pular mais alto.

O que me faz lembrar de uma outra cena de um filme muito bom, o clássico “Questão de Honra”:

Essa é a verdade do nosso esporte, talvez DO esporte. Can you handle the truth?

É isso, pessoal, um abraço e até a próxima!

3 comentários Adicione o seu

  1. Ricardo Cruz disse:

    Tá aí um tema que sempre vai estar em alta (principalmente na base). Na minha opinião o ideal é que o coach consiga compreender que cada atleta é diferente e responde diferente aos estímulos. Se ser Durão faz vc tirar algo de melhor de 1 ou 2 atletas, com certeza esta inibindo 1 ou 2 atletas tambem. INTELIGENCIA EMOCIONAL acho que esse é o ponto, entender que cada um é diferente, acho que esse sim é o grande diferencial de um excelente coach.

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  2. Marcos disse:

    Tema onde podemos falar sobre horas e horas.
    Não há receita de bolo.

    As personalidades dos atletas são diferentes. Cada atleta é único.

    Cabe ao treinador saber, conhecer e criar mecanismo para que possa tirar o maximo de cada jogador.

    Tempos atrás surgiu um vídeo durante um pedido de tempo onde um treinador na base da seleção brasileira reclamava de maneira forte com seus atletas e foi duramente criticado por isso. Eu, particularmente, achei normal, até pq os atletas tinha feito exatamente o contrário do que tinha sido proposto e era atletas do Sub17

    Falando nisso (sub 17) cabe tbem lembrar que qdo falamos em base, estamos falando desde os 11 anos até o sub-19 e muitas vezes até sub-21
    Há uma diferença enorme qdo se muda 1 ano! O 12 não é igual ao 13, o 13 ao 14 é assim por diante.

    Muitos dos que reclamam tbem desses treinadores, esquecem que os garotos de 15 (pra não falar menos) já tem vida social e muitas vezes sexual ativa. (Se é certo ou errado isso é outra história) o provocação que eu levanto é a seguinte: esses atletas ouvem música com temas dos mais variados, muitas vezes com palavrões, conotações sexuais e por aí vai… é exposto pelas redes sociais a todo tipo de conteúdo, já namora.. mas o treinador dar uma “bronca” aí não pode pq ele é muito novo. Há de se ter o bom senso.

    Como disse tema complexo que difícil de expor tudo em uma resposta aqui.

    Mas resumindo é bem aquilo como os vídeos.

    O treinador é aquele alguém que vai lhe dizer o que vc não quer ouvir, que faz vc ver o que não quer ver, para que vc possa ser aquele que sempre soube que poderia ser.

    Curtido por 1 pessoa

    1. BBallBase disse:

      Fala, Marcos.
      Sensacional seu comentário, concordo plenamente. E esse ponto do técnico da seleção brasileira (Filet) eu lembro bem. O time estava totalmente fora do planejado e já havia pedido um tempo técnico e nada mudou. Na hora que veio o segundo tempo eu já pensei “lá vem A bronca”….e é isso mesmo, faz parte. Ele foi muito criticado e, na minha opnião, injustamente…as pessoas ficam com essa imagem mas não tem o contexto – e muito menos como é fora das quadras.
      Eu tinha esquecido desse momento, senão teria entrado no texto.

      Muito obrigado pelo comentário
      abs!

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