Por onde andam os grandes nomes da BASE? Por que pararam?

Fala, pessoal!

Dado esse momento de confinamento que estamos passando, eu ando revisitando bastantes eventos da base do passado e compartilhando nas redes sociais, e é muito comum me chamarem na DM perguntando:

Quem deles está jogando ainda hoje?

É sempre desafiador encontrar os resistentes, e ao mesmo tempo triste ao saber que grandes talentos encerrem suas carreiras de forma precoce, às vezes antes mesmo de se profissionalizarem. Nessa matéria eu entrei em contato com alguns atletas que tiveram destaque na base, mas por diferentes motivos, foram seguir suas vidas com outras ocupações.

Seleção Brasileira Cadete de 2003

Se você, caro leitor, for um atleta da base, é capaz que não conheça muitos dos nomes que irei citar, mas leia até o final porque a experiência que eles tiveram lhes poderão ser úteis durante a sua jornada.

Eu conversei com os seguintes ex-atletas:

  • Fábio Belotto
  • Zezinho Limonta
  • Tiago Jabur
  • Fábio Micheletti
  • Talita Lourenço

Fabinho

Vamos começar com Fábio Belotto (@fabelotto8), mais conhecido como Fabinho. Conheci-o quando estava no C.A. Ypiranga e foi atléta de Gustavo De Conti (técnico do Flamengo). Hoje Fábio é diretor comercial e tem um podcast sobre basquete, o Racha do Filhos (@rachadofilhos):

  • Até onde foi sua carreira no basquete (base/adulto)?

Eu joguei até o primeiro ano de adulto. Comecei na escolinha do clube esportivo da Penha, fui para o Ypiranga no Sub-12 e joguei lá até o sub-15. Em seguida fiquei 3 anos no Esperia.
Meu segundo ano de Juvenil e meu adulto foram no Paulistano. Joguei 6 meses de adulto na real.

Ypiranga campeão Sub-12 de 1999
  • Por que precisou encerrar a carreira?

Dois motivos principais. Motivo número 1 foi a organização do basquete nacional na época. Não era profissional, era bem amador. Mesmo o Paulistano, que tinha uma boa estrutura, ainda tinha uma pegada bem amadora. O outro motivo é que eu tive um problema de saúde, tive uma “contusão”, em consequência de um problema de saúde que tinha desde os 15 anos. Fiquei quase um ano parado e esse foi o momento que eu sabia que voltaria com algumas limitações e abri minha cabeça para outros talentos que poderia ter.

Já muito novinho eu preparei minha cabeça para uma provável limitação para que eu fosse um jogador. Tive a oportunidade de estudar em um bom colégio, graças a Deus, e tive que começar a fazer um set na cabeça de que talvez jogador não era a única opção que eu tinha, e isso foi muito bom. Mesmo assim fui até o primeiro ano de adulto, com algumas limitações mas com certo destaque.

Peguei seleção Sub-17, fui cortado da seleção na Sérvia por conta de contusão (Mundial que o Brasil ficou em quarto). Mas ali eu já tinha muito claro que tinha outras possibilidades na vida. Tinha uma facilidade para fazer uma análise situacional do basquete. Hoje sou economista e quando parei de jogar estava no terceiro ano da faculdade.

Então a falta de possibilidades de basquete na época misturado com essa limitação que tive foram o que me fizeram parar de jogar.

  • O que poderia ser feito, tanto na base quanto no adulto, para que os atletas tivessem uma carreira mais longa?

Se tivesse a LDB na época, talvez eu estendesse um pouco mais. No momento eu era um jogador top de categoria de base que tinha outras opções na vida, e que não estava afim de ficar viajando para lá e para cá jogando 1-2 minutinhos por jogo, só treinando. Isso não me motivava mais. Talvez ter mais competições para essa galera que está na transição, quanto mais jogo, mais experiência, contato com jogo. Provavelmente eu teria estendido minha carreira.

Zezinho

Vamos agora com Zezinho (@zezinho14). Esse foi um atleta que conheci apenas no profissional. Como sempre tive interesse na base, quando surgiu um nome novo já prestava mais atenção – ainda mais em Franca. E eu gostava de seu jogo mas de repente não ouvi mais falar dele. Hoje ele é treinador individual de basquete e treinamento integrado.

Vamos ver como foi seu processo:

  • Até onde foi sua carreira no basquete (base/adulto)?

Eu cheguei a jogar até meus 22 anos e foi quando decidi parar de jogar. Meu primeiro jogo no adulto eu tinha 16 anos, foi aqui em Franca, e com 17 anos eu efetivei no adulto. Fiquei até meu primeiro ano de profissional e depois tive a experiência de jogar em Sorocaba, Londrina, Assis e Araraquara. Todos os anos jogando NBB, mas em 2012 decidi parar.

  • Por que precisou encerrar a carreira?

Um dos motivos que eu encerrei a carreira foi a falta de organização dos times. Em Araraquara nós tivemos problemas financeiros, montou o time faltando dois dias para começar o campeonato paulista, depois dois dias para começar o brasileiro fomos avisados que não iríamos jogar mais – e por fim acabamos jogando. Em Londrina eu fiquei sem receber. Então são coisas que foram desmotivando, sabe? E eu comecei a por na balança se valia a pena mesmo eu ficar longe da minha família e dos meus amigos, até que ponto isso valeria a pena.

Foi onde eu desmotivei de ser jogador, pela falta de profissionalismo de alguns clubes brasileiros – não generalizando.

  • O que poderia ser feito, tanto na base quanto no adulto, para que os atletas tivessem uma carreira mais longa?

Eu acredito que nós ainda estamos engatinhando nesse processo com a LDB. Com ela a gente consegue prolongar a vida útil do jogador da base. A gente sabe que um jogador de basquete não surge do dia para noite. Eu sei que no Brasil é um pouco mais difícil, mas uma segunda divisão igual tem na Europa, onde os times têm equipes B para colocar os jogadores mais novos para jogar contra adultos, então esse é um ponto de partida.

E uma política esportiva, dentro das escolas, das universidades, se tornando uma coisa mais profissional, que poderia dar uma carreira mais longa para o atleta, que as vezes para precocemente por falta de oportunidade. Ou até tem a oportunidade mas pode não ter enfrentado alguma dificuldade e acaba faltando a malícia da base para o adulto, experiência de vivenciar coisas diferentes dentro de um jogo mais puxado.

Tiago Jabur

O próximo é Tiago Jabur (@tjabur). Conheci Tiago quando ele chegou em SP para jogar no Pinheiros – aliás, um dos Pinheiros mais apelões de todos os tempo! – e também esteve na seleção brasileira de base.

  • Até onde foi sua carreira no basquete (base/adulto)?
  • 1996-2001: SOGIPA, RS (Base)
  • 2002: Pinheiros, SP (Base)
  • 2003: SOGIPA, RS (Base)
  • 2004: Grêmio Náutico União, RS (Base Adulto)
  • 2005-2006: Uniara Araraquara, RS (Base, Adulto)
  • 2007-2008: South Plains College, EUA (Junior College)
  • Por que precisou encerrar a carreira?

Vários fatores contribuiram pro final da carreira:

  • Acúmulo de lesões no tornozelo, punhos e joelho. A última lesão foi no junior college que me afastou por 4 meses. 
  • Dificuldade de ver um futuro promissor, com um salário e moradia estável.
  • A oportunidade de estudo de ensino superior no EUA
  • O que poderia ser feito, tanto na base quanto no adulto, para que os atletas tivessem uma carreira mais longa?
  • Trabalho mais próximo com atletas de preparo físico, alimentação e prevenção de lesões desde categoria de base.
  • Ênfase no trabalho de fundamentos e controle de corpo em categorias de base.
  • Ênfase no desenvolvimento acadêmico tanto na escola quando na faculdade. Poucos jogadores de base chegam ao profissional. E um jogador tem uma média de vida profissional relativamente baixa. Tem que ter uma alternativa de vida presente. Seria ótimo ter uma presença profissional em colégios e faculdades.
  • Método mais efetivo de transição entre base e profissional (agora tem a LDB mas não tinha na minha época).

Fábio Micheletti

Agora temos Fábio Micheletti (@fabiomicheletti). Conheci Fábio quando ele estava no Monte Líbano e era um baita armador! Muito rápido e atlético, chegou também a seleção de base.

  • Até onde foi sua carreira no basquete (base/adulto)?

Eu joguei até o principal, na Hebraica, por dois anos e meio. Depois joguei regionais em Pindamonhangaba, Taubaté e continuei na faculdade. Na base eu cheguei a três seleções paulistas e uma brasileira.

  • Por que precisou encerrar a carreira?

Eu encerrei por decisão própria, eu não via mais futuro, não tinha LDB – esse incentivo que existe hoje – e eu optei por estudar. Ganhei uma bolsa no Mackenzie jogando basquete e por isso eu decidi parar de jogar profissionalmente e foquei nos estudos, ainda jogando.

  • O que poderia ser feito, tanto na base quanto no adulto, para que os atletas tivessem uma carreira mais longa?

Bom, o que poderia ser feito já está sendo feito – uma parte. Infelizmente os clubes não prosseguem um trabalho tendo em vista o profissional. O Palmeiras, por exemplo, montou time profissional por 1-2 anos e depois encerrou, Rio Claro montou e depois desmontou. Não tem uma continuidade no trabalho de alguns times, então é um mundo imprevisível o do basquete.

Eu diria que poderia ser feito um programa estruturado. Não dá para jogar um ano e não saber se aquele local ainda vai ter basquete depois. Esse seria o principal.

No mais, na categoria de base está feito pela LDB, que estende a categoria até 23 anos, se não me engano, e isso dá uma boa visibilidade. Na minha época era até o juvenil, 18-19 anos, e você virava ou já era. Ou persistia muito.

Então precisaria ter alguns programas e claro, o pessoal ser um pouco mais justo. O tanto que a gente vê de pessoas que roubam, ainda mais com política e por aí vai né, mas não queria entrar nessa seara. Um programa mais estruturado para que os times ou cidades mantenham vivo o esporte, nem só o basquete.

Talita Lourenço

E para o pessoal mais contemporâneo, falei também com Talita Lourenço (@talitamlg), que se encontra afastada das quadras mas também foi atleta.

  • Até onde foi sua carreira no basquete (base/adulto)?

Joguei até os meus 18 anos, 1º ano do Juvenil.

  • Por que precisou encerrar a carreira?

Porque fiz uma cirurgia de realinhamento patelar no joelho esquerdo e meu rendimento nunca mais foi o mesmo.

  • O que poderia ser feito, tanto na base quanto no adulto, para que os atletas tivessem uma carreira mais longa?

Eu tive uma estrutura excelente, não posso reclamar, joguei a carreira inteira no BCN / Osasco que hoje é o Bradesco, parei por motivos de lesão.
Mas, acredito que são dois os principais fatores que podem contribuir para que os atletas tenham carreira mais longa:
– estrutura técnica, tática, médica e psicológica;
– mais equipes pra jogar do Sub 12 até o Adulto (patrocinadores / investimento).

Bônus: Tiago Tomazini

Vou só colocar um adendo aqui de outro grande atleta da base, mas que também interrompeu sua carreira precocemente: Tiago Tomazini. Eu havia entrevistado o ex-atleta para o site Área Restritiva (link aqui) e fiz a pergunta sobre o encerramento:

Foram diversos eventos. Em 2003, após voltar da seleção brasileira infanto (sub-16), eu rompi o ligamento cruzado anterior do meu joelho direito e tive que ficar mais de 6 meses parado e em tratamento. Voltei a jogar mas não no mesmo nível que jogava antes. Já no último ano juvenil (sub-19), decidi começar a fazer faculdade meio período e dividir o meu tempo com os treinos. Após completar a categoria de base, fui dispensado do clube e decidi correr atrás de estudos nos Estados Unidos para poder continuar estudando também.

Nesse período passei por Sorocaba até ir pros Estados Unidos por conta própria. Lá também não tive muita oportunidade de jogar basquete, mas nas férias de volta ao brasil, participava de alguns campeonatos e em um deles rompi o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo e tive que parar novamente. Voltei ao brasil, decidi começar um tratamento e fazer faculdade, foi a partir daí que não joguei mais profissionalmente.

Bom, pessoal, eu posso citar mais alguns grandes talentos que não seguiram no basquete – Rafael Sabbag, Luiz Lo Leggio, Rafael Crescencio, Andrezão, Fred Duarte, Bruno Pira (esse, inclusive, foi o maior talento da base que já presenciei) – mas o ponto aqui é que vemos algumas similaridades nas histórias: falta de estrutura/perspectiva e lesões como motivos de encerramento e algo como LDB para estender esse processo.

Atletas e pais da base, fiz esse texto porque é importante terem alguns pontos em vista: o caminho para se tornar um profissional não é uma corrida de 100 metros rasos, está mais para uma maratona. Você pode chegar a seleção de base, se profissionalizar, ganhar títulos e prêmios, mas nem sempre a oportunidade estará disponível. Talvez precisará insistir mais do que o esperado, ou talvez aceitar que o nosso basquete ainda não atingiu um nível de profissionalismo satisfatório e engolir alguns sapos – nesse momento que um preparo emocional conta demais. E aí aparece o momento que muitos dos atletas mencionados chegaram, de pesar os prós e contras e ver se vale a pena.

Tendo a acreditar que a realidade de hoje mudou bastante em relação ao que os entrevistados disseram, principalmente com a chegada da LDB, mas as dificuldades estão para todos, e por isso é sempre bom ter um pé na realidade e tentar tirar proveito das oportunidades que o basquete apresenta: bolsa de estudo (Brasil ou fora, colégio ou faculdade), contatos (trabalhar como técnico futuramente, ou preparador físico) e por aí vai.

Caro leitor, a estrada é longa! Boa sorte e se mantenham saudáveis, físico e psicologicamente!

É isso, pessoal, um abraço e até a próxima!

3 comentários Adicione o seu

  1. Gilmar da Silva disse:

    Ótima matéria, infelizmente lesões todos atletas estão sujeitas a elas, sabemos também que apenas 5% da base irão chegar ao adulto e sobreviver como atletas, mesmo assim vendemos este sonho aos nossos atletas da base, com certeza precisamos ser mais realista com base preparando eles com estudo, pois se não tiver futuro como atleta , através do estudo seu futuro estará um pouco mais garantido.

    Curtido por 1 pessoa

    1. BBallBase disse:

      Fala, Gilmar!

      Exatamente. Pode-se tirar muita coisa do esporte, entre elas se tornar um profissional.
      Mostrar a possibilidade de estudo é importantíssima.

      Valeu pelo comentário.
      Abs!

      Curtir

  2. Hernani disse:

    Ótima Matéria!!!
    Lembro que nós anos 90, havia um jogador muito top nas bases, chamado Uber Tadeu, jogou nos pinheiros muitos anos e ganhou tudo na época, nunca mais ouvi falar dele!

    Curtido por 1 pessoa

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