Nicolas Zivieri | Conheça os desafios de um árbritro na base

Fala, pessoal!

Aqui no site eu tenho a proposta de falar sobre a base – toda a base. Das entrevistas que fiz, falei com alguns personagens como atletas, ex-atletas, técnicos, organizadores de time, recrutador e preparador físico. Tem um outro personagem muito importante – e também muito polêmico – que faz parte do universo do basquete: o árbitro.

Conversei com o jovem Nicolas Zivieri, vencedor do prêmio árbitro revelação de 2018 pela federação paulista de basquete, e ele falou sobre como entrou na área, os desafios, seus objetivos e curiosidades. Acompanhe que ficou muito legal!

Como começou seu contato com o basquete?

O contato com o basquete começou com meus pais, meu pai é árbitro e minha mãe é oficial de mesa e ia nos jogos sempre com eles para assistir e, mais tarde com 11 anos comecei a jogar na cidade em que moro.

Por que decidiu virar árbitro?

Assistindo meus pais e sempre nas conversas de arbitragem e regras acabei me interessando, inicialmente para seguir o caminho junto com eles, viajar e tem uma grana extra aos finais de semana.

Como é o processo para ser tornar árbitro?

Para se tornar árbitro qualquer pessoa deve realizar o curso de oficiais de quadra e mesa, realizado principalmente pelas federações de cada Estado. A partir disso segue-se como qualquer outra profissão, o oficial inicia em estágios com jogos de categorias menores e vai evoluindo conforme seu interesse e trabalho, ganhando jogos de categorias maiores e competições de maiores importâncias. Existem categorias dentro dos quadros de oficiais, indo de um nível de estágio até o título de Árbitro Internacional, e para aumentar a categoria o árbitro deve participar de clínicas, acampamentos, competições promovidas pela CBB, para se alcançar o quadro Nacional e FIBA, para se alcançar a categoria Internacional.

Nicolas Zivieri é um dos árbitros estreantes no NBB CAIXA 2019/2020 (Fotojump/LNB)

Existe uma categoria mais difícil de trabalhar?

A categoria e a dificuldade de se apitar vai de cada árbitro, alguns preferem um jogo em que se pode incentivar e ensinar os atletas como deve acontecer nas categorias de base, já outros árbitros preferem somente os jogos mais técnicos. Claro que muitas vezes a dificuldade de se apitar um jogo adulto em que existe alguma pressão de classificação por exemplo, e com o ginásio lotado, a dificuldade aumenta, mas vai de cada árbitro relacionar e controlar suas emoções dentro de cada esfera e ambiente. Eu particularmente acho mais complicado se apitar uma partida da base, sub-12/13, onde acontecem mais violações, deve se interpretar muito mais vezes o que os jogadores estão fazendo, cuidado para o que se vai falar para os jogadores e lidar com os fatores que existem fora das quadras que muitas vezes afetam negativamente as crianças.  

Como e qual foi seu primeiro jogo?

Meu primeiro jogo foi em um jogo de Basquete em Cadeira de Rodas, além de atuar no Basquete convencional, atuo também no Basquete em Cadeira de Rodas. Confesso que foi muito complicado viu, estava extremamente ansioso e isso me deixou muito perdido em quadra, não sabia pra onde ir, quase me atropelaram várias vezes, apitava coisas sem sentido, então uma típica partida de quem estava começando mesmo. Mas estava muito feliz por ter começado apitar, sabia que seria um processo de aprendizagem e fui buscando melhorar.

Qual foi a partida mais difícil que trabalhou na base e por que?

Foi em uma partida na categoria sub-13, no meu segundo ano de arbitragem. Por mais que ainda estava aprendendo, foi uma partida em que tive um péssimo desempenho tecnico, aquele dia em que realmente nada dá certo, aquele dia de um arremessador que não caiu nada. Com isso, cada vez mais as cobranças e reclamações iam aparecendo, eu não conseguia melhorar e não conseguia me concentrar e soar o apito em um simples lateral era uma batalha de certeza ou não. Me senti muito mal com ele, pois foi um jogo muito importante com placar decidido nos segundos finais e necessitava muito meu trabalho para auxiliar meu companheiro. São jogos que levamos pra vida toda, que fazem parte do processo, que infelizmente acontecem, mas nos fazem levantar e lutar cada vez mais por nossos objetivos, eles também são importantes.

Já foi agredido ou recebeu ameaças?

Ameaças acredito que estejam no dia a dia de todo árbitro, aquelas de torcedores fanáticos e que são muitas vezes pais querendo proteger os filhos, elas acontecem e entendo muito. Já agressão e ameaças realmente direcionadas a mim nunca sofri, acredito que hoje em dia são ainda casos mais raros de agressões, mas infelizmente ainda acontecem e devemos sempre que possível identificar e punir os agressores que fogem totalmente a todos nossos objetivos, quanto atletas e profissionais dentro do esporte.

O que é mais complicado de lidar em uma partida da base: os atletas, os técnicos, torcida ou os pais?

Acredito que a torcida e os pais são os problemas maiores, pois com atletas e técnicos, nós árbitros, temos várias maneiras de lidar, onde podemos ter diversas abordagens, como pequenas conversas ou penalizações conforme as regras e muitas vezes acabamos criando um relacionamento respeitoso entre ambas as partes, conhecendo técnicos e jogadores ao longo do tempo eles aprendem a respeitar e melhorar suas reclamações, tratando todos com respeito também iremos receber desta maneira. Já a torcida e pais são muito controlados pela emoção, que dá uma dificuldade maior para se controlar.

Qual situação de jogo gera mais polêmica quando é marcada?

Ultimamente estão acontecendo bastante contestações quando são relacionadas com as mudanças de regras, grandes mudanças foram feitas no basquete mundial, como a entrada do passo quando o jogador realiza o controle da bola enquanto está em movimento, que chamamos de passo 0, que foi difícil até para nós árbitros nós acostumarmos com está situação. Dessa vez, o que acredito que pode causar um pouco de confusão são as diferenças dos movimentos de arremesso, pois foram feitas regras diferenciando o ato de arremesso parado, como por exemplo é feito em um arremesso de 3 pontos, e o ato de arremesso em movimento, realizado em uma bandeja, no começo podem acontecer algumas confusões pelos técnicos e jogadores, mas com o tempo ele vai ficando claro.

Existe uma infração que é mais difícil de pegar?

Acredito que as situações mais difíceis de se apitar são as de tendência de cesta e interferência, muitas vezes elas são claras e nestes casos são fáceis de se identificar a violação, mas em algumas situações, como quando acontece o toco depois que a bola toca a tabela, o árbitro tem que estar muito atento e estar olhando para a bola para analisar esta situação, pois são jogadas muito rápidas e, quando se fica muito atento nesta situação, pode perder alguma outra coisa fora, então temos que analisar ao máximo mas mesmo assim estar atento nas situações fora da bola.

Como você vê o entendimento das regras por parte dos atletas, técnicos e torcida?

Ainda vejo como baixo, muitos técnicos estudam a regra e procuram sempre saber mais e se atualizarem, e acredito que quando possuem conhecimento das regras, aumentam o potencial do seu trabalho, pois podem instruir melhor seus atletas em uma defesa mais forte, como explorar as faltas e quais momentos se usar a falta positivamente.

Existe um ginásio/torcida que os árbitros mais sofrem?

Existe sim, os ginásios maiores em que o público está bem próximo a quadra são os que conseguimos sentir mais a energia dos torcedores e isso pode afetar negativamente no trabalho na arbitragem. Já os ginásios, são poucos que sofremos, geralmente são os que não possuem equipamentos ideais de cronômetros leds, etc, que devemos tomar algumas outras medidas para conseguir realizar o trabalho e aumentar a atenção para não afetar o desenvolvimento do jogo.

Eu vejo que muitos árbitros tem outro emprego, e fazem jogos como forma de obter uma renda extra. Pretende seguir na carreira? Até onde quer chegar?

Pretendo seguir carreira sim. Hoje o caminho da arbitragem para se alcançar objetivos mais altos está cada vez mais rápido, crescemos tanto que as vezes nem vemos o tempo passando, lidar com o amadurecimento, as responsabilidades e níveis técnicos mais altos, devem ser mais rotineiros para conseguirmos nos adaptar e continuar no meio das competições que vamos entrando. Tenho como objetivo maior alcançar a categoria Internacional e apitar bons jogos dentro de competições internacionais, contribuir ao máximo dentro da federação paulista, pois temos muitos árbitros renomados aqui, estar junto com eles em competições é de extrema importância e de orgulho para mim. Pretendo seguir também como um segundo emprego, e nós árbitros devemos sim ter isso para não depender somente de jogos, vejo que esta pandemia foi uma lição para muitas coisas, refletir sobre o que fazemos e o que vamos fazer é muito importante, importante para nossa carreira profissional, para nós mesmos e nossos familiares. Quero seguir com a arbitragem enquanto estiver me sentindo bem dentro de quadra e estar atuando bem, independente de qual categoria eu ser e qual categoria estar apitando, estou aberto a novos desafios dentro da arbitragem e estar atuando feliz com meu trabalho, tendo pessoas que me apoiam, continuando com a família de amigos que a arbitragem me deu, buscando ser profissional, sendo recebido bem nos lugares em que vou e querendo e tentando melhorar sempre, são coisas que me motivam e me fazem querer continuar dentro da arbitragem.

Cite uma ou mais situações inesperadas/engraçadas que já aconteceu contigo.

Em jogos tenho poucas situações destas, mas em um jogo quando estava no primeiro ano de arbitragem o botão da minha calça estourou e não dava mais pra fechar e eu ainda não levava uma calça reserva, tive a sorte que estava apitando com uma arbitra mulher e como uma boa bolsa de mulher que tem tudo, achou um clips e uma cordinha e teve uma bela gambiarra, depois daquilo só tênis reserva que não levo na mala. A maioria das histórias que tenho são em viagens, em uma competição no Rio de Janeiro a minha mala foi extraviada e recebi ela somente na noite do dia seguinte, outra vez em um hotel, queimou uma luz em um outro quarto com outro árbitro e acionou o alarme de incêndio dentro do quarto e ninguém do hotel conseguia desligar, o andar todo do hotel virou uma possa de água. E o mais inesperado foi em uma viagem para um jogo em Belém-PA e todos acabaram passando mal devido uma carne que comemos no almoço e jantar, e acabaram me falando que podia ser cancelado o jogo, mas que devíamos ir pra quadra respeitar protocolo, fiquei muito chateado pois queria muito apitar aquele jogo, quando chegamos no vestiário e começamos a fazer a pré-partida eu assustei muito, achei que realmente iria ser cancelado e fui pego de surpresa. O basquete me proporcionou diversas viagens que nunca esperava, lugares que conheci  que ficam marcados, diversas histórias muito boas que vivo e acabo escutando e pessoas que acabei conhecendo que com certeza serão para vida toda.

Sensacional, Nicolas! Muitíssimo obrigado pelo disponibilidade e que continue se desenvolvendo e evoluindo para alcançar seus objetivos.

É isso, pessoal. Um abraço e até a próxima!

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s