Seleção Brasileira Sub-16 | Reflexões do técnico “Ciclano” – Parte 2/2

Algum-lugar-que-não-seja-São-Paulo, 31 de julho de 2021

Olá, meu nome é Ciclano e sou técnico de basquete na cidade de Algum-lugar-que-não-seja-São-Paulo.

Comecei a jogar basquete com 10 anos e tive uma carreira na base muito boa. Fui campeão diversas vezes mas não consegui concluir meu sonho com a profissionalização. Para não largar o esporte que tanto amo, cursei educação física e passei a treinar equipes em Algum-lugar-que-não-seja-São-Paulo. Isso já tem quase 20 anos. Nossa, como o tempo passa!

Hoje treino as equipes Sub-15/16/19, além de ser personal nas horas vagas (ou nas que deveriam ser de descanso).

Na minha equipe sub-16 tem um garoto que se destaca demais, talvez um dos mais talentosos que tive a oportunidade de treinar: o Fulano. Fulano tem tudo que um técnico poderia sonhar: é talentoso, esforçado, tem uma base familiar que o apoia e ama treinar. Sei que ele se irrita comigo devido as cobranças, mas sei que ele pode render muito ainda. Muito mais do que ele próprio acredita.

Nos vemos praticamente todos os dias e chega a ser revigorante ter um talento desses em minhas mãos. E queremos a mesma coisa: que ele seja um profissional. Faça sol, faça chuva, ele está lá, pronto para construir mais um degrau em sua escada em direção ao sonho. E eu para ajudá-lo.

Hoje saiu a lista de convocados para a seleção brasileira Sub-16 e….seu nome não está lá. Estou no basquete por tempo suficiente para já ter visto isso acontecer algumas vezes e para, infelizmente, não me chocar tanto mais. Fulano não foi o primeiro grande talento que testemunhei ser totalmente desconsiderado. Vejo isso acontecer praticamente todo ano.

Segunda-feira temos treino e acredito que bastará uma troca de olhares para entendermos tudo o que cada um sente. Eu tentarei motivá-lo, dizendo que deve seguir em frente e treinando cada vez mais para provar que todos erraram. Isso pode dar certo (como já deu) ou dar errado (como já deu também) e nosso país se despede de mais um grande jogador.

Do meu lado, chega um momento que um técnico de Algum-lugar-que-não-seja-São-Paulo passa a avaliar sua carreira, se vale a pena se dedicar tanto a uma modalidade que não dá o mínimo de esperança para seus atletas. Se vale a pena continuar se indignando ou o basquete “brasileiro” é isso mesmo? Será que eu falhei com Fulano? Talvez devesse incentivá-lo a ir logo para São Paulo (apesar de não achar que seja o momento ainda) e rir quando os clubes disserem que o formaram.

O que nos resta é seguir. Fazer o nosso melhor e torcer pelo melhor.

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