Pontos de vista das seleções de BASE

Fala, pessoal!

Que semana para o basquete brasileiro, não? Entre polêmicas políticas e judiciárias, tivemos nossas seleções de base Sub-16 masculina e feminina disputando a Copa América, que classifica os 4 primeiros para o Mundial Sub-17. Infelizmente as vagas não vieram e foi mais um assunto que entrou no turbilhão de sentimentos para o amante do basquete nacional.

Foi um aponta dedo para um, xinga outro, culpa esse, briga com aquele. No entanto eu ainda vejo com bons olhos essas discussões porque sei que, no fundo, é uma manifestação de um desejo que o basquete brasileiro seja melhor (com exceção daqueles que se aproveitam para fazer politicagem). Muitas pessoas querem contribuir com o debate público e propor soluções que nem sempre cabem na realidade, mas gostaria de ressaltar que acho isso tudo muito válido. A hora que ninguém mais ligar, aí sim ficarei preocupado.

Dito isso, eu gostaria de trazer aqui alguns pontos de vista que tenho sobre toda essa organização da seleção brasileira de base, falando mais detalhadamente de cada personagem envolvido. Bóra lá!

  • Comissão técnica

Já vamos começar com o mais polêmico de todos, as comissões técnicas. Essa galera foi MUITO criticada, mas é necessário ter um pouco mais de contexto para sermos mais acertivos no nível da crítica e até mesmo o alvo. E aqui vou falar sobre aspectos do jogo, não cenas lamentáveis de quarto.

Olhando apenas para o que foi feito dentro da quadra, o resultado não foi legal. Acho que isso é ponto pacífico. Mas o que daria para ser feito com uma semana de treinamento? Poderíamos até colocar outras equipes de treinadores, mas ainda seria uma semana apenas.

Pessoalmente, eu acho uma baita de uma roubada ser técnico de seleção de base. Você não tem acesso a todos os atletas do Brasil porque não temos nada que os integre. Não existe orçamento que permita que os técnicos acompanhe in loco os campeonatos regionais. Não existe tempo de treinamento adequado para nascer um time.

Nesse cenário, sendo necessário ainda montar um time a toque de caixa, me parece muito natural que se vá selecionar apenas atletas que se conhece (ou que pessoas de sua confiança conhecem). Pense o seguinte, caro leitor, você é promovido a gerente comercial e precisa montar sua equipe de vendas. O diretor lhe dá o prazo de uma semana para entrevistá-los e na seguinte, já começa a te cobrar pelos resultados de vendas. Dado o tempo, você iria entrar no LinkedIn, postar sua vaga, analisar os milhares de currículos, aprovar os candidatos e treiná-los ou pediria indicações de colegas de profissão?

Podemos criticar os técnicos, mas realmente tenho minhas dúvidas que, dado o cenários que tínhamos, se sairia algo muito diferente com outras opções. Muitos criticaram a concentração de atletas de SP nas duas listas, e acho super válida essa crítica (e concordo com ela), mas acredito que tenhamos caído no cenário do gerente comercial.

Mas dado esse contexto, acredito que caibam críticas. Ninguém obriga um técnico a aceitar o cargo, e uma vez aceito, a responsabilidade cai sobre você, tanto das decisões dentro de quadra quanto fora. Convocar atletas e não utilizá-los é sinal de que tiveram erros na escolha. E se houve esse erro, talvez seja porque o leque de opções de um técnico de seleção devesse ser maior, para saber que tem fulano no Paraná, ou ciclano em Brasília que caberia no time. A confederação deveria proporcionar esse conhecimento? Talvez sim, num mundo ideal, mas aqui isso não acontece e já é sabido.

  • Jogadores

Pensa o seguinte, caro leitor, estamos falando de jovens de 16 anos, com papéis definidos em suas equipes e que, de repente, são colocados juntos com outros atletas e suas responsabilidades deverão ser outras. Aquele atleta que faz 25 pontos por jogo deverá ter seu jogo diminuído porque o foco ofensivo vai ser em outro. E estamos falando também de uma idade em que, além do desenvolvimento técnico, está ocorrendo o desenvolvimento emocional também. Soma tudo isso e expõe para o mundo. Se tem algum personagem que não deveria ser criticado, na minha opnião, são os atletas.

Inclusive, fica aqui meu MUITO OBRIGADO aos 24 atletas por terem dado a cara a tapa para o mundo e terem representado nosso país da melhor maneira que vocês conseguiram naquele momento, dado tudo isso que mencionei.

Independente se esses foram ou não os melhores conjuntos dos nascidos até 2005, criticá-los não faz sentido algum para mim. São resultados dos trabalhos de seus clubes e dos técnicos da seleção.

  • Pandemia

Claro que surgiu esse fator. Mas isso atingiu todo mundo. Um fato curioso foi a federação Canadense, onde os atletas não se viram até poucos dias antes do torneios, mas já estavam em contato por meses. Planejamento que chama né?

Tradução: O grupo CWNT está em chamadas de zoom há meses, mas apenas juntos pessoalmente desde 10 de agosto. Aqui estamos nós, 15 cotonetes de nariz e 15 treinos depois e é hora de jogar pelo ouro! Grato pelo nosso staff, cuidando bem do time para que possamos continuar competindo! Mais 1 jogo juntos!
  • Clubes

Os clubes também foram criticados durante a semana, e por vários motivos, mas se tem um dos pontos citados que acho interessante trazer aqui é que somos mais direcionados a vencer do que desenvolver. São poucos times que evitam colocar um super pivô plantado no meio do garrafão ou que se recusam a marcar zona. Mas eu acho que o buraco é um pouco mais embaixo, e talvez reflita nosso entendimento do esporte.

Tweet cirúrgico feito por seguidor

Os mais antigos vão lembrar que tínhamos um projeto muito legal em Ribeirão Preto, o COC. De lá saíram grandes nomes do basquete como Alex Garcia, Hettscheimeir, Paulão Prestes, Renato Lamas, Nezinho e muito outros. Esse time foi campeão brasileiro 1 vez e campeão paulista 5 anos seguidos (2001 até 2005), inclusive invicto em uma das ocasiões. E o que aconteceu de um ano para outro? O time acabou.

Trabalhar com basquete no Brasil é ainda muito incerto, então se um time com esse histórico pode acabar do nada, imagina outros que não entregam vitórias atrás de vitórias. E se uma associação de sócios decide que o basquete não deveria continuar no clube porque tem muitos gastos e só perde?

A saída que eu vejo aqui é que deveríamos apoiar mais as outras ligas, que tendem a ter um custo menor e podem trazer mais competitividade para os times (que é daí que virá o desenvolvimento real).

A realidade é que não existe cultura esportiva no Brasil. Gostamos de ganhar. Essa mudança de entendimento ocorrerá só a longo prazo e entendo que aqui cabe meu papel, de buscar valorizar e divulgar mais times que desenvolvam de verdade, e não apenas os que mais vencem (vou falar mais sobre isso no item ‘mea culpa’).

  • Confederação

Mencionei anteriormente sobre os fatores que um técnico passa no momento da convocação. Não pode chamar 20-30 atletas porque isso envolve custo; não pode acompanhar campeonatos in loco porque tem seu time para treinar e a confederação não tem orçamento; não tem visão de todos os atletas pois não temos um campeonato brasileiro de fato representativo; e por fim, não tem tempo de treinamento. Tudo isso, ao meu ver, deveria ser fornecido pela CBB.

Pois é, de fato a CBB tem problemas financeiros, mas será que não tem nada que ela poderia fazer para facilitar ou incentivar? Quem sabe também trabalhar mais de perto com as federações para ir criando relatórios de acompanhamento dos talentos de cada estado (sim, também não consigo imaginar a federação paulista ajudando a CBB). Falando nela…

  • Federação paulista

A federação também foi bastante criticada por….não fazer seu papel. No caso falo especificamente da paulista porque teríamos uma seleção inteira de representantes paulistas se Borio (Curitibano) não fosse chamado às pressas. De qualquer forma, a maioria veio dela.

Como pode ser visto nessa matéria que fiz recente sobre os custos de ter um time (link aqui), a federação além de criar um ambiente extremamente elitizado para praticantes, ainda joga contra se aproveitando das derrotas das equipes para criticar a CBB (leia aqui).

Onde está o trabalho de popularização do esporte?

  • Mea culpa

Eu acredito que venho reforçando muitos pontos que apontei, principalmente no canal do YouTube, onde na maioria dos casos registrei jogos das equipes postulantes a títulos. Tentei mudar isso, principalmente no site, e era minha inteção principal na temporada passada, mas veio e pandemia e os jogos acabaram. Mas se eu cobro uma massificação do esporte, eu vejo que tenho obrigações nisso também, e meu foco nas transmissões será esse quando as competições voltarem.

O que achou, caro leitor? Faz sentido esses pontos levantados? Deixem seus comentários ou podem me chamar nas redes sociais que batemos um papo.

É isso, pessoal. Um abraço e até a próxima!

1 comentário Adicione o seu

  1. João disse:

    “..é que somos mais direcionados a vencer do que desenvolver”..disse tudo,.há algum tempo o basquete brasileiro apresenta diversas gerações de atletas mal formados e o resultado disso tudo presenciamos continuamente nos campeonatos, NBB, LNB etc,,com uma imensa quantidade de erros de fundamentos básicos e agora somados ao aumento vertiginoso de arremessos precipitados do perimetro que vem sendo estimulado inclusive dentro das bases, incrivelmente e justamente nestas categorias onde deveria ser trabalhado o conhecimento, a leitura do jogo, o trabalho de equipe conjuntamente com todos os aspectos tecnicos…inclusive acredito que jogador mal formado técnicamente tambem não irá render táticamente…seleções adultas e de base na mesma situação..lamentavel. Parabens pela matéria, Abraço,

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